“Vida e Luta de Álvaro Tukano: Acervo Doéthiro”, exposição revela trajetória de liderança indígena e seu legado de resistência
- flavioresende

- há 2 dias
- 4 min de leitura

Álvaro Tukano, liderança indígena do povo Yepá-Mahsã é respeitosamente uma das grandes vozes pela luta dos direitos indígenas no Brasil e na América Latina. A exposição “Vida e Luta de Álvaro Tukano: Acervo Doéthiro” rememora sua trajetória através de seu acervo particular que reúne mais de três décadas de militância e liderança. A mostra ocupará a Casa da Cultura da América Latina (CAL/UnB) de 28 de maio a 25 de junho de 2026, com abertura no dia 28 de maio às 19h.
Objetos oriundos do Xingu, como um chapéu de palha da etnia Karaja, cestos de fibra de arumã, da etnia Baniwa fazem parte da coleção etnológica, já na coleção de obras raras, uma seleção inédita de livros escritos na língua do povo Yepa Mahsã, a língua tukano.. O Acervo Doéthiro reúne objetos etnológicos, documentos históricos, fotografias, obras literárias raras.
O nome Doéthiro, inspirado na cosmologia do povo Yepa Mahsã, refere-se ao espírito do primeiro homem, o nome de batismo de Álvaro Tukano que se refere àquele que atravessa mundos e conecta tempos. É sob essa simbologia que o acervo se organiza: como um dispositivo de memória viva, tecido por redes de parentesco, cuidado, luta e conhecimento tradicional.
Preservação e apresentação do acervo
Mais do que uma coleção particular, o Acervo Doéthiro transforma a memória individual de Álvaro Tukano em patrimônio coletivo. Sua apresentação ao público cumpre funções fundamentais para a sociedade como um todo. Primeiro, o acervo reflete a sua luta em prol do movimento indígena nas últimas cinco décadas, período de grandes transformações e conquistas de direitos no Brasil.
Segundo, oferece material concreto para que estudantes, pesquisadores e comunidades indígenas possam conhecer e se reconhecer em sua própria história. Terceiro, propõe um modelo descolonizado de gestão de acervos, baseado na gestão compartilhada entre a comunidade indígena e especialistas em ciência da informação.
Por fim, insere a memória indígena em um diálogo continental, reafirmando que os povos originários são parte viva e fundamental da América Latina. Todas as peças que compõem a exposição passaram por rigoroso processo de higienização, acondicionamento, inventário e digitalização, garantindo sua preservação física e documental. O acervo está disponível online na plataforma Tainacan, tecnologia desenvolvida na Universidade de Brasília, assegurando acesso público e qualificado a esse patrimônio no endereço www.acervo.doethiro.com.
Álvaro Tukano: seu papel histórico na luta dos povos indígenas
Álvaro Tukano é liderança indígena do povo Yepá-Mahsã, da região do Alto Rio Negro (AM). Sua trajetória atravessa momentos decisivos da história recente do Brasil. Desde os anos 1970, atuou na articulação política nacional e internacional, participou da construção de políticas públicas para povos indígenas e ocupou cargos de destaque, como o de diretor do Memorial dos Povos Indígenas, em Brasília.
Sua vida é marcada por um duplo movimento: o de lutar por direitos em espaços institucionais e o de manter vivas as tradições, rituais e saberes de seu povo. Foi justamente nesse atravessamento entre mundos – o da aldeia e o da cidade, o da cosmologia indígena e o das políticas públicas – que nasceu o Acervo Doéthiro.
Seu papel histórico inclui a participação em assembleias nacionais e encontros interétnicos que ajudaram a consolidar os direitos indígenas na Constituição de 1988, além de décadas de resistência contra a violência e o apartheid territorial que ainda afetam os povos originários na América Latina.
Outros itens em destaque na exposição
Objetos fabricados manualmente por comunidades de diversas etnias — como o chapéu de palha dos Karajás e as cestas de fibra de arumã dos Baniwa e dos Warao — são algumas das peças adquiridas por Álvaro Tukano ao longo de suas viagens para a produção da exposição "Séculos Indígenas", à qual ele se dedicou por mais de três décadas.
Destacam-se, em sua trajetória, livros de sua autoria como "Doéthiro: Álvaro Tukano e os Séculos Indígenas no Brasil" e "O mundo Tukano antes dos brancos", além de obras de sua própria etnia, como "Nirãkahse Ukuri Turii Yepa Piroporãtuanase Bueri Turi", escrito por Yepa Piroparã em tukano sobre os costumes tradicionais do povo Yepa Mahsã.
As fotos reunidas ao longo de sua vida estão organizadas por viagens, encontros, projetos, comunidade e família. Registros de sua viagem à Holanda para denunciar a imposição religiosa e punitiva em seu território, atos contra o sucateamento e abandono da FUNAI, reuniões de lideranças indígenas e comunitárias, além de projetos culturais como o Moitará, são algumas das imagens e documentos históricos expostos no acervo.
Por fim, a exposição conta com a projeção da mais recente produção cinematográfica sobre a vida de Álvaro Tukano: o filme "Cobra Canoa".
Programação gratuita
Além da exposição, o projeto promove duas atividades abertas ao público:
No dia 15 de junho de 2026, das 14h às 18h, será realizada a oficina "Gestão de Acervos Digitais no Tainacan" no Laboratório de Informática da Faculdade de Ciência da Informação (FCI/UnB). A atividade oferece uma introdução prática à plataforma Tainacan com testagem colaborativa do site do Acervo Doéthiro, sendo voltada a estudantes, profissionais e interessados em museologia, arquivologia e biblioteconomia. As vagas são limitadas.
No dia 16 de junho de 2026, também das 14h às 18h, o auditório da FCI/UnB recebe a roda de conversa com Álvaro Tukano, um diálogo direto e aberto ao público sobre memória, cultura, território e trajetória política dos povos indígenas.
Ambas as atividades são gratuitas e integram o esforço do projeto de fortalecer o diálogo entre comunidade indígena, universidade e sociedade civil.
SERVIÇO:
A exposição “Vida e Luta de Álvaro Tukano: Acervo Doéthiro” acontece de 28 de maio a 25 de junho de 2026, com abertura no dia 28 de maio às 19h, na Casa da Cultura da América Latina (CAL) da Universidade de Brasília (UnB). Localizada no Setor Comercial Sul (SCS), Quadra 04, Bloco A, Edifício Anápolis.
Serão apresentados cerca de 120 itens do acervo.
A entrada é gratuita e a classificação indicativa é livre.
Para mais informações, o público pode acompanhar as redes sociais @acervodoethiro @cal_unb ou acessar o acervo online em www.acervo.doethiro.com e www.ddc.unb.br.
Sobre o projeto:
O projeto Memórias Indígenas das Etnias da América Latina é uma iniciativa colaborativa entre a comunidade indígena Yepa Mahsã, a Casa de Cerimônias Indígenas Bahsakewií e especialistas em gestão documental e cultural. Sua segunda edição é realizada com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB/2024), dando continuidade ao trabalho de memória, cuidado e difusão das culturas indígenas da América Latina.









Comentários