Mineradora canadense desmata áreas e avança sobre território reivindicado pelo povo Mura no Amazonas
- flavioresende

- há 8 horas
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A mineradora canadense Potássio do Brasil realizou, nos últimos meses, o desmatamento de áreas localizadas dentro da Terra Indígena (TI) Lago do Soares, reivindicada pelo povo Mura. Situado no município amazonense de Autazes, o território está em fase de estudos de identificação e delimitação pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).
As ações, comprovadas por fotos, mapas e imagens de satélite, são parte do megaprojeto de mineração de potássio na região do baixo rio Madeira. Elas iniciaram depois da concessão de Licenças de Instalação à empresa pelo Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam).
Segundo o Ministério Público Federal (MPF), o órgão estadual não tem competência para licenciar a atividade devido à dimensão do projeto, à sobreposição com a TI em estudo e aos impactos em outras terras indígenas da região.
Apesar disso, entre abril e agosto de 2024, o Ipaam concedeu ao menos sete licenças de instalação à mineradora, autorizando a realização de um conjunto de obras e a instalação de uma mina subterrânea para extração de silvinita, rocha a partir da qual são produzidos sais de potássio, insumo largamente utilizado pelo agronegócio.
As obras da empresa avançam em meio a denúncias de coação, ameaças, fraudes e ausência de consulta aos indígenas, relatadas pelo povo Mura, e a uma enorme pressão política para liberar a mineração em terras indígenas, que tem a Potássio do Brasil como um dos principais agentes.
Enquanto a demarcação reivindicada há mais de duas décadas pelos indígenas não sai, a multinacional dá início à instalação de um empreendimento de grande impacto num território central para o debate sobre mineração em terras indígenas no Brasil.
Imagens do satélite Sentinel-2, do programa europeu Copernicus, evidenciam alterações numa área de cerca de 61 hectares que, segundo as lideranças do povo Mura, estão totalmente sobrepostas ao território indígena reivindicado. As áreas correspondem às coordenadas que, na Licença de Instalação concedida pelo Ipaam, abrigarão a planta industrial para o processamento do minério, a mina para lavra subterrânea, áreas de canteiro de obras e pilhas de rejeitos e de solo orgânico.
As alterações foram identificadas comparando imagens obtidas pelo satélite em 16 de abril de 2025 e 2 de março de 2026, e parte delas se sobrepõe, também, às áreas em que a empresa obteve do Ipaam autorização para supressão de vegetação nativa. Em dezembro de 2025, lideranças do povo Mura foram ao local onde será instalada a planta industrial e comprovaram a devastação do local.
“Eram áreas de mata primária e também algumas partes de mata secundária, porque foram áreas usadas para criação de gado”, explica Filipe Gabriel Mura, tuxaua da comunidade de Soares, diretamente impactada pelo empreendimento.
“Olhando o mapa de cima, não parece que é muita coisa. Mas quando a gente está lá, a gente consegue ver o tamanho de tudo e perceber que cabem duas da nossa comunidade dentro dessa área”, afirma.
Em materiais de divulgação do projeto de exploração minerária, a empresa afirma que o projeto seria instalado “em áreas tradicionalmente ocupadas por pastagens”, sem necessidade de “supressão de vegetação nativa de floresta tropical”.
O tuxaua Filipe Gabriel Mura, no entanto, contesta a afirmação e diz que a área derrubada pela empresa incluía áreas de vegetação nativa e árvores frutíferas. E, sobretudo, conta que o povo Mura já tinha um destino para essa parte de seu território – que, neste exato momento, é devastado pela multinacional canadense com autorização do órgão ambiental do estado do Amazonas.
“Eles compraram esse espaço de pessoas que não tinham desmatado toda aquela área, era somente uma parte, onde eles tinham as criações deles. Mas tinha muita árvore frutífera também, e ainda tinha muita parte nativa e árvores que estavam crescendo novamente”, relata o tuxaua.
Quando o território for demarcado, explica ele, “a gente pretende, coletivamente, reflorestar aquele local, tanto com árvores frutíferas quanto com árvores madeireiras, porque a gente mora ali e faz casa de madeira, barco de madeira, que serve para a nossa locomoção no território. Queremos cuidar também porque, no momento em que a gente consegue reflorestar, os animais também voltam a aparecer”.
“Então, a gente vê o desmatamento dentro da terra indígena como uma violação grave. É um desrespeito ao nosso direito e à nossa luta. Como que uma área em processo de reconhecimento pode ser impactada dessa forma? Isso mostra que esse tipo de empreendimento não respeita os povos indígenas”, indigna-se o tuxaua.
Como a Funai ainda não publicou a delimitação oficial da TI Lago do Soares, a empresa afirma que o empreendimento não se sobrepõe diretamente a terras indígenas. A posição é reproduzida pelo Ipaam e pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
“Eles dizem que não é no território indígena porque não fica dentro da vila principal, só que tudo ali faz parte da comunidade”, contesta a liderança. “A mina fica a menos de dois quilômetros da concentração de moradias. Nós ficamos revoltados pelo fato de tentarem nos apagar, apagar nossa identidade”.
Falta de transparência e fracionamento de licenças
Em 2024 e 2025, a empresa obteve do Ipaam cinco autorizações de Supressão Vegetal, que autorizaram a empresa a desmatar 257 hectares – totalmente sobrepostos ao território reivindicado.
As licenças de instalação citam a autorização para a intervenção em um total de 203 hectares, incluindo a área de beneficiamento mineral, uma estrada para atender o complexo e a construção de um porto na margem direita do rio Madeira para escoar a produção.
Uma das principais críticas ao processo de licenciamento, no entanto, é que a real dimensão do empreendimento é de uma escala muitas vezes maior do que as licenças concedidas para atividades na superfície, dado que se trata de um projeto de exploração de jazidas subterrâneas.
“O empreendimento não tem sido muito claro quanto aos seus impactos territoriais, nem sobre qual seria o seu alcance real. Não apenas da planta, mas também das jazidas, de toda essa área que a empresa pretende esburacar. Tudo está vindo muito fracionado, como se fosse uma coisa separada da outra”, critica Francesc Comelles, integrante do Conselho Indigenista Missionário – Cimi Regional Norte 1.
A falta de informações sobre o impacto sistêmico do projeto é questionada também pelo MPF em ações judiciais. Peças de divulgação da empresa, informações dispersas em licenças estaduais e passagens do Estudo de Impacto Ambiental (EIA) permitem vislumbrar um quadro mais próximo da real abrangência do empreendimento e dos interesses da Potássio do Brasil na região.
No EIA, a empresa afirma que pretende explorar as jazidas em Autazes por 31 anos, ao longo dos quais é prevista a extração de 227 milhões de toneladas de minério bruto. Esse volume resultará em 61,7 milhões de toneladas de potássio e 165,3 milhões de toneladas de rejeitos, entre cloreto de sódio (sal de cozinha), que poderá ser comercializado, e outras sobras “insolúveis”.
Segundo o EIA do empreendimento, esses rejeitos serão armazenados em grandes pilhas na superfície e, depois, enviados novamente ao subsolo. O volume total de rejeitos será cinco vezes maior do que o despejado pelo rompimento da barragem da Vale em Brumadinho.
O EIA reconhece o risco de salinização das águas próximas ao empreendimento. O Relatório de Impacto Ambiental admite “a possibilidade de águas com grande teor de sal infiltrar nos aquíferos rasos próximos à área da planta alterando a qualidade dessas águas”.
A comunidade de Soares fica numa região de várzea e muitas moradias indígenas são flutuantes. Sua vida está diretamente ligada à sazonalidade dos rios Madeira e Amazonas, de seus afluentes e do próprio lago que dá nome à aldeia. A degradação da qualidade da água pode significar um risco à sobrevivência dos Mura na região.
“No Amazonas chove muito. Agora, imagine essa chuva toda atingindo pilhas de sal a céu aberto, numa área de várzea, em plena floresta amazônica?”, questiona o tuxaua Filipe Gabriel.
“Os impactos negativos têm sido demonstrados pelo próprio estudo de impacto ambiental, mesmo com suas limitações. Eles reconhecem esses impactos para a fauna, a flora, a vida das populações, mas os menosprezam frente aos supostos benefícios econômicos”, pontua Comelles.
“A gente pede que o Estado brasileiro respeite os povos indígenas, porque isso não é só com a gente. Se a gente deixar acontecer, vai atingir outros povos também”, alerta o tuxaua de Soares. “Pedimos que a sociedade toda preste mais atenção, principalmente no Amazonas. No momento em que salinizar a água, pode atingir a todos”.










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