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Arqueologia revela passado milenar indígena no Distrito Federal

Projeto apoiado pela FAPDF investiga vestígios arqueológicos no DF e Entorno e ajuda a reconstruir a história dos povos indígenas na região
Projeto apoiado pela FAPDF investiga vestígios arqueológicos no DF e Entorno e ajuda a reconstruir a história dos povos indígenas na região

O Dia dos Povos Indígenas, celebrado em 19 de abril, convida à reflexão sobre a história, a cultura e a presença dos povos originários no Brasil — inclusive em territórios onde essa memória foi, ao longo do tempo, invisibilizada. No Distrito Federal, um projeto fomentado pela Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF) vem contribuindo para resgatar essa história e lançar novos olhares sobre o passado da capital do Brasil.

 

Desenvolvido por meio do edital Demanda Espontânea (2024), o projeto Arqueologia e História Indígena no Brasil Central (PHIBRA) é coordenado pelo professor Luis Cayón , do Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília (UnB), e investiga vestígios arqueológicos que revelam a presença de povos indígenas no DF e entorno há milhares de anos.

 

O DF antes de Brasília: a reconstrução da presença indígena no território 

Muito antes da construção de Brasília, o território do Distrito Federal já era ocupado por diferentes povos indígenas. No entanto, ao longo do tempo, essa presença foi sendo apagada, consolidando a ideia equivocada de que a região teria surgido como um espaço vazio.

 

 

Relevo geológico onde se encontra a Gruta do Gentio II, em Unaí, MG. (Foto: acervo do projeto)
Relevo geológico onde se encontra a Gruta do Gentio II, em Unaí, MG. (Foto: acervo do projeto)


 Segundo o coordenador do projeto, essa percepção é resultado de uma narrativa histórica limitada. “A narrativa histórica oficial ainda negligencia a profundidade temporal e a complexidade das ocupações indígenas, reforçando a ideia de um território vazio que deveria ser colonizado”, explica Luis Cayón.


Professor Luis Cayón durante atividades de escavação na Gruta do Gentio II, em Unaí (MG), um dos principais sítios arqueológicos investigados pelo projeto PHIBRA. (Foto: acervo do projeto)
Professor Luis Cayón durante atividades de escavação na Gruta do Gentio II, em Unaí (MG), um dos principais sítios arqueológicos investigados pelo projeto PHIBRA. (Foto: acervo do projeto)

 

A pesquisa busca justamente desconstruir essa visão, utilizando vestígios arqueológicos como evidências concretas de uma ocupação humana milenar.


Vista do interior da Gruta do Gentio II. (Foto: acervo do projeto)

 


 As escavações se concentram em áreas do entorno do DF — com destaque para o município de Unaí, já no estado de Minas Gerais, onde está localizada a Gruta do Gentio II, um dos principais sítios estudados. No local, foram encontrados ossos humanos, objetos, sementes, cerâmicas e tecidos, que ajudam a revelar aspectos da vida desses povos ao longo de milhares de anos.

 

Técnicas revelam modos de vida de povos milenares

A reconstrução desse passado é possível graças à integração de diferentes áreas do conhecimento. O projeto reúne uma equipe interdisciplinar e utiliza técnicas modernas para investigar os vestígios encontrados.

 

Registro e mapeamento preciso dos achados arqueológicos são realizados por meio de técnicas que permitem identificar a localização exata de cada vestígio no sítio. (Foto: acervo do projeto)
Registro e mapeamento preciso dos achados arqueológicos são realizados por meio de técnicas que permitem identificar a localização exata de cada vestígio no sítio. (Foto: acervo do projeto)

 Como iniciativa de pesquisa básica, o projeto está inserido nos níveis iniciais de maturidade tecnológica (TRL 1 a 3), voltados à produção de conhecimento científico e à ampliação das investigações sobre o passado.

 

“A arqueologia oferece ferramentas poderosas para acessar uma história não escrita, permitindo recuar milênios além dos documentos coloniais e seus vieses”, destaca o pesquisador.

 

Entre as abordagens empregadas estão análises genéticas, geoquímicas e estudos de solo, além da investigação de pinturas rupestres — registros que podem indicar padrões relacionados à passagem do tempo, como possíveis calendários solares.

 

Escavação arqueológica em andamento revela camadas de solo que registram vestígios de ocupações humanas ao longo de milhares de anos. (Foto: acervo do projeto)
Escavação arqueológica em andamento revela camadas de solo que registram vestígios de ocupações humanas ao longo de milhares de anos. (Foto: acervo do projeto)

 

Essas ferramentas permitem compreender, por exemplo, a dieta dessas populações — baseada no consumo de vegetais como tubérculos, frutos e sementes do Cerrado, além da caça de animais de pequeno e médio porte —, bem como suas formas de ocupação do território, práticas culturais e relações entre diferentes grupos ao longo do tempo.

 

Pesquisa fortalece valorização do patrimônio indígena

Além da produção científica, o PHIBRA se destaca pelo seu caráter formativo e social. Desenvolvido no formato de sítio-escola, o projeto transforma o campo arqueológico em um espaço de ensino e construção coletiva do conhecimento.


Atividade de análise e separação de materiais coletados em campo integra o processo de formação prática dos estudantes envolvidos no projeto. (Foto: acervo do projeto)
Atividade de análise e separação de materiais coletados em campo integra o processo de formação prática dos estudantes envolvidos no projeto. (Foto: acervo do projeto)

 “Para os estudantes, é a oportunidade de aplicar a teoria na prática. Para as comunidades, cria-se um vínculo com o patrimônio, transformando moradores em guardiões da própria história”, afirma Cayón.

 

A iniciativa promove a participação ativa de estudantes e comunidades locais nas escavações e análises, além de ações de educação patrimonial.

Mais do que revelar o passado, o projeto busca impactar o presente e o futuro.

 

“O DF não é o início da história, mas um capítulo recente de uma longa cronologia de ocupação humana”, ressalta o pesquisador.


Colaboradores do projeto participam da triagem de sedimentos coletados em campo, etapa essencial para a identificação de microvestígios arqueológicos. (Foto: acervo do projeto)
Colaboradores do projeto participam da triagem de sedimentos coletados em campo, etapa essencial para a identificação de microvestígios arqueológicos. (Foto: acervo do projeto)

O apoio da FAPDF tem sido essencial para viabilizar as escavações, as análises laboratoriais e a formação de estudantes e pesquisadores envolvidos no projeto.

 

“Sem o fomento da FAPDF, o PHIBRA não teria a escala e o impacto que tem hoje, especialmente na formação de novos pesquisadores na região”, destaca Cayón.

 

 

Equipe do projeto PHIBRA realiza atividades de campo na Gruta do Gentio II, espaço que funciona como sítio-escola e reúne pesquisadores, estudantes e comunidade local. (Foto: acervo do projeto)
Equipe do projeto PHIBRA realiza atividades de campo na Gruta do Gentio II, espaço que funciona como sítio-escola e reúne pesquisadores, estudantes e comunidade local. (Foto: acervo do projeto)

Ao revelar vestígios de uma ocupação humana que atravessa milênios, o projeto contribui para recontar a história do território onde hoje está o Distrito Federal. Mais do que investigar o passado, a iniciativa amplia o olhar sobre o presente e reforça a importância de reconhecer, valorizar e preservar a memória dos povos indígenas que sempre estiveram no coração do Brasil.

 


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