Pesquisadores lançam guia inédito de coexistência entre pessoas e antas
- flavioresende

- 22 de dez. de 2025
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Pesquisadores do Programa Grandes Mamíferos da Serra do Mar lançaram neste mês de dezembro o “Guia de Coexistência entre pessoas e antas”, inédito no Brasil. A publicação traz orientações para minimizar ameaças e interações negativas em áreas onde há a presença da anta (Tapirus terrestris), visando o bem-estar das pessoas e a conservação da espécie, que é o maior mamífero terrestre do Brasil, ameaçado de extinção. A obra está disponível para download gratuito.
A publicação traz capítulos que abordam as principais ameaças à espécie – no Brasil e na América Latina, onde o animal pode ser encontrado: caça, atropelamento, morte por retaliação por prejuízos causados pelo consumo de plantações de alimentos, e cães domésticos que atacam o animal. O guia também traz seções adicionais, como orientações de cultivo sustentável, recomendações para situações de encontro com o animal ferido ou morto, além de informações sobre a espécie e as oportunidades que podem surgir com sua presença, como o turismo de observação de fauna silvestre. Todos os temas são abordados para melhorar as condições de coexistência entre pessoas e antas.
Solução para produtores rurais
Entre os principais capítulos da publicação há um voltado a agricultores, com orientações para instalação de barreiras físicas para proteção dos cultivos — uma medida para impedir a entrada de antas nas plantações, evitando prejuízos econômicos, a rejeição da fauna e até o abate do animal por retaliação.

O capítulo traz as experiências e resultados obtidos em um projeto desenvolvido pelo Programa Grandes Mamíferos da Serra do Mar, por meio da frente de atuação de Coexistência Humano-Fauna, em São Miguel Arcanjo, interior de São Paulo, com produtores de uva.
Mariana Landis, coordenadora de Coexistência Humano-fauna do Programa Grandes Mamíferos da Serra do Mar, explica que o projeto foi fruto de 11 anos de estudo das interações entre pessoas e antas, o que incluiu um mapeamento das áreas prioritárias para intervenção na Serra do Mar para redução de conflito, e um planejamento estratégico para implementar ações que pudessem resultar em impactos positivos na relação entre as pessoas e a espécie foco.
“Existem diferentes possibilidades de intervenção, mas o cercamento elétrico foi a alternativa exitosa nessa região. Este guia reúne todas as boas práticas deste projeto, e que podem ser adaptadas em outras localidades que tenham cenários similares. O abate por retaliação, somado a outras pressões – como desmatamento, caça, atropelamento e ataque de cães domésticos, está entre os fatores de declínio da população de antas. Ter um guia que apresente soluções para reduzir essas interações negativas é uma maneira de fortalecer as pessoas — especialmente as comunidades locais — para que atuem de forma ativa na proteção da fauna e na preservação de seus próprios meios de vida., acrescenta a pesquisadora.
Reforço na coexistência humano-anta
Os outros capítulos do guia não apenas abordam as demais ameaças à anta, mas também diretrizes e práticas que podem promover a coexistência. “A abordagem de coexistência humano-fauna permite um olhar ético para as interações entre humanos e animais silvestres, considerando a conservação das espécies, mas também o as pessoas envolvidas para que a conservação seja efetiva. Para falar da conservação da anta, não podemos ignorar o fator humano”, reforça Landis.
O capítulo do guia sobre oportunidades apresenta a observação de fauna como uma alternativa de geração de renda e conservação da anta. “Com amplo arcabouço técnico-científico, construímos de forma coletiva e participativa as ações que geraram resultados e que agora podem ser replicadas. Além de visar a redução e prevenção dos conflitos humano-fauna, também mapeamos as oportunidades para potencializar nossos esforços de conservação, como a observação de fauna, um segmento do turismo de natureza que vem ganhando cada vez mais adeptos. Ou seja, queremos que a presença da anta passe de um problema para uma oportunidade, que as pessoas tenham orgulho de compartilhar do mesmo espaço com elas. O guia traz um exemplo real, viável e já em andamento”, diz a pesquisadora.
Landis se refere ao Projeto Anta à Vista, realizado na Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Trápaga, em São Miguel Arcanjo-SP, que é resultado das ações de coexistência do Programa Grandes Mamíferos da Serra do Mar na região. O projeto é o único na Mata Atlântica que promove a observação da anta em vida livre, com alta porcentagem de sucesso de avistamento.
Ao comentar os resultados do Programa, Felipe Feliciani, analista de Conservação do WWF-Brasil, ressalta o potencial da abordagem de coexistência humano-fauna para gerar ganhos compartilhados. “Temos muitos exemplos exitosos em outros países e regiões do Brasil onde o WWF tem atuação com projetos de coexistência humano-fauna. No entanto, há uma lacuna de conhecimento e boas práticas quando se trata de antas. Com esse guia, que envolve uma série de outras ações pioneiras, conseguimos levar alternativas e conhecimento para auxiliar localidades a minimizar, mitigar ou evitar conflitos com antas, especialmente àquelas que abrigam populações importantes da espécie e que têm contextos sociais complexos. Esta é mais uma iniciativa que o WWF-Brasil se orgulha em poder contribuir, impactando positivamente não só a conservação da biodiversidade brasileira, mas também comunidades locais”, finaliza o analista.
SERVIÇO:
O guia está disponível para download clicando aqui.
Sobre o Programa Grandes Mamíferos da Serra do Mar
O Programa Grandes Mamíferos da Serra do Mar tem como objetivo melhorar o status de conservação dos grandes mamíferos ameaçados de extinção no maior remanescente de Mata Atlântica, evitando a perda de biodiversidade e potencializando a restauração de ecossistemas. Por meio da ciência, tecnologia e inovação, produzimos indicadores de biodiversidade para subsidiar tomadores de decisão e criamos soluções para contribuir na persistência das espécies e no bem-estar humano. O Programa é uma iniciativa idealizada por pesquisadores do Instituto Manacá – IM e do Instituto de Pesquisas Cananéia – IPeC, combinando mais de 20 anos de experiência de atuação em pesquisa e conservação da Mata Atlântica. Atuamos em parceria com instituições ambientais e de pesquisa público- privadas, empresas e comunidade local, promovendo uma agenda territorial integrada às ações de proteção e manejo.
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